Capitulo 4
“...”
Ás vezes penso como seria eu se fosse diferente do que sou, mais perfeita? Mas não me consigo imaginar de outra maneira senão desta. Perfeita ou imperfeita. Neste momento, estou ligada a uma máquina, que tem um barulho completamente irritante. Foi então que entrou aquele homem, aquele homem terrível vestido de bata branca.
- Olá maluquinha, tudo bem? – disse o Dr. Matias, com um sorriso irónico e um seringa na mão, fez questão de pressioná-la e de me deixar ver o líquido transparente atravessar o vazio. – Se não me responderes, injecto-te isto, está bem?
- Não quero saber. Vá-se embora! – respondi rispidamente. A cara dele alterou-se de irónica para extremamente zangada, num movimento brusco, injectou-me aquela porcaria no braço, e comecei a sentir o líquido fluir pelo meu braço e alastrar pelo meu corpo. Estava trémula e o coração batia acelerado, que espécie de veneno era este? Apesar do efeito já ter passado, havia ainda réstias que me faziam estremecer.
- Então, vamos lá começar! – a cara dele estava outra vez enervantemente risonha. – A tua mãe está quase a bater as botas, o teu pai diz para te orientares sozinha, então o que eu faço de ti?
- O meu pai o quê?! – perguntei chocada.
O Dr. Matias pegou na banana que me recusei a comer ao pequeno-almoço e fingiu que era um telefone, começou a falar com uma voz mais grave:
- Não quero saber! Se ela fez a asneira, agora que se oriente sozinha, não é maior de idade? Melhor: Nunca me lembrei de ter uma filha. Adeus, Dr. Matias. – fez questão de atirar com a banana para a parede e sorrir-me num sorriso amarelo. – Parece-me que não tens para onde ir...
- Não quero saber. Deixe-me sair daqui! Não gosto de hospitais.
- Ohhh! Mas eu já arranjei solução… - murmurou ele.
- Que..?
- Vens para minha casa. – disse numa voz gentil e acolhedora, num tom tão dócil e verdadeiro. Soube de imediato que esse tom era verdadeiro, aprendi a reconhecer todos os olhares que recaíam sobre mim e à muito que não se dirigia a mim um assim.
- Eu não… - a minha voz fraquejava pela primeira vez à frente daquele homem.
- Então aceitas? Está-me a custar muito ser simpático… - olhou para o lado para não lhe ver a expressão.
- Porque agora está a ser tão simpático comigo?
- Eu sempre fui simpático contigo, à minha maneira, maluquinha!
- Eu aceito. – porque não havia de aceitar? Não tinha outro sitio para ir…
- Depois venho-te buscar, então…!
Perdi a noção do tempo, mas quando abri os meus olhos de novo, uma figura angelical desenhava-se à minha frente. Uma expressão jovem, serena e apaziguadora. Imenso caracóis loiros e olhos de um azul profundo, uma camisa branca um pouco aberta, deixando exibir um colar com motivos indígenas. Quando foquei a pessoa que me observava, descobri ser o Dr. Matias.
Quando saí do hospital, a figura divertida dele contrastou com aquele raro dia solarengo. Parecia um anjo que transbordava conforto e bondade. Foi a primeira vez que percebi que aquele Dr. Matias não passava de um rapaz de vinte e seis anos, discretamente belo, e de nome Tiago. Aquele era um Tiago diferente, o tão aguardado anjo-da-guarda que esteve ocupado todos estes anos, mas que finalmente chegou.
Quis sonhar porque a minha realidade era cruel, agora quero assentar os pés na terra, pois não mais os sonhos são apenas sonhos…_________________
Ninakat ©